Home office deve crescer 30% após pandemia, aponta estudo

Home office deve crescer 30% após pandemia, aponta estudo

O rastro que o coronavírus tem deixado país afora — para além de dor, distanciamento e superação — é de cautela no mercado de trabalho e mudanças nas relações entre patrões e empregados. Empresas perdem fôlego financeiro com receitas à míngua, oportunidades nascem e alguns negócios, tateando na escuridão, adaptam-se em busca de sobrevida.

Nesse cenário obscuro, o trabalho remoto emergencial foi a principal medida adotada para resistir à crise e ajudar na contenção da covid-19, uma ação que tende a ter impactos irreversíveis segundo o estudo “Tendências de Marketing e Tecnologia 2020: Humanidade redefinida e os novos negócios”.

Desenvolvida por André Miceli, coordenador do MBA em Marketing e Inteligência de Negócios Digitais da Fundação Getulio Vargas, a pesquisa prevê crescimento de 30% do home office no Brasil após a pandemia. E sugere que líderes sejam encorajados a revisar seus processos internos, pensarem, testarem e compreenderem que a tecnologia é, “cada vez mais, um ativo humano”.

A análise cita o e-commerce e o ensino a distância, que em geral, devem crescer 30% e 100%, respectivamente. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística  (IBGE) aponta que trabalhar em casa ou até mesmo em outros espaços, como o coworking, cresceu 21,1% entre os anos de 2017 e 2018.

— O home office já se mostrou efetivo. Aliado a isso, você tira carros da rua, desafoga o transporte público e mobiliza a economia de outra forma. Você faz com que as pessoas tenham mais tempo para cuidar da saúde e que elas possam usufruir de coisas que lhes dão prazer sem que a empresa tenha redução das entregas e do faturamento — destaca o professor, acrescentando que muitos empresários estão preferindo adotar práticas que estimulem o bem-estar e a autonomia do funcionário em detrimento de um regime mais fechado de trabalho.

Wolnei Ferreira, diretor-executivo da Sociedade Brasileira de Teletrabalho e Teleatividades (Sobratt), reconhece que houve empresas aderindo ao home office de forma atabalhoada, sem os devidos cuidados e nem seguros sobre a eficácia e viabilidade, prospectando nele o único recurso possível.

Aos poucos, avalia, esses empresários estão melhorando suas estruturas e percebendo uma solução “confiável, segura e de contingenciamento de gastos”. Ainda que forçado em razão da pandemia, o trabalho remoto implantado emergencialmente faz as vezes de um projeto-piloto para quem vinha amadurecendo a ideia. Empresas estão testando controles de monitoramento do funcionário e da produtividade, conexão de internet e demais equipamentos.

Quanto mais a tecnologia avança, mais as características humanas tendem a se sobressair. As empresas que adotarem home office vão precisar criar momentos de interação, de cultura, de aproximação dos times. Veremos uma sociedade cada vez mais distante fisicamente, porém unida pela tecnologia e por esses eventos.

— Antes da pandemia, alguns empresários estavam adotando de forma temerária. Deixavam funcionários em casa uma vez por semana, mas a tendência é que a lógica se inverta após a crise: uma vez por semana no trabalho e o restante em casa — projeta Ferreira, que também é diretor jurídico da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH).

A presença do funcionário nas dependências do empregador vez ou outra importante, pontua Ferreira, para evitar perda de identidade, para que haja interação com os colegas e para aquelas eventuais conversas pessoais que precisam ser olho no olho, sem mediação tecnológica.

Em seu estudo, Miceli diz que, em momentos de instabilidade, como o da atual pandemia, é preciso ser flexível com estruturas e modelos corporativos para prosperar. E sempre ter em mente os benefícios que esse modelo de trabalho trazem para o empregador, como aumento entre 15% e 30% na produtividade do colaborador.

— Todos os levantamentos que temos mostram que a produtividade aumenta no mínimo 20%. Há elevação significativa, também, no grau de confiança entre as duas partes. Os gestores percebem que o subordinado não precisa ser supervisionado para ser produtivo. Há um amadurecimento na relação de trabalho — emenda Ferreira.

Conforme o estudo, essa reestruturação do trabalho permitirá que o número de pequenos negócios e empreendedores cresçam. A projeção é que, para 2020, dois movimentos já existentes no mercado se fortifiquem: um deles é o de consolidação de cases como o da Amazon, exemplo de megaempresa que compra empresas grandes e cria ecossistemas cada vez maiores. A gigante americana compete em mais de 10 mercados diferentes. O segundo é o de pequenos negócios movimentando a economia local por conta de um empreendedorismo de necessidade.

— É a pessoa que foi demitida nesta crise e precisa ganhar dinheiro. Vai produzir artesanato, bijuterias ou outros produtos para serem vendidos por Whatsapp, Instagram ou Facebook — diz o autor do trabalho.

Miceli encerra o estudo falando que “encontrar a produtividade no trabalho remoto, escolher as tecnologias certas, gerar experiências positivas para equipes e clientes são ações que podem ser tomadas logo. Talvez tenhamos novas quarentenas, talvez uma vacina mude de novo o rumo da história, mas o fato é que não será possível esperar um céu de brigadeiro para que se defina uma nova forma de operar. As empresas que encontrarem seu caminho rapidamente irão prosperar — e os profissionais que liderarem suas organizações serão capazes de não apenas entender o atual momento, mas construir o futuro”.

Visão diferente tem o professor de Sociologia e coordenador-adjunto da especialização em Relações de Trabalho da UFRGS, Fernando Cotanda:

— Desconheço o estudo em questão, mas duvido que o home office como um todo cresça 30% depois da pandemia. É verdade que a modalidade vem crescendo no Brasil, mas imaginar que durante o curto período da epidemia ocorra uma migração significativa é precipitado — avalia.

Para Cotanda, as restrições impostas pela pandemia irão acelerar processos de implantação de trabalho remoto, mas o método não é aplicável a qualquer atividade produtiva e esse é um movimento complexo e demorado, que implica em equipamentos adequados, logística, sistemas de comunicação, de compartilhamento e de proteção de dados e protocolos.

— É importante lembrar que este fenômeno está fortemente ligado ao crescimento da terceirização e da informalidade no Brasil. Portanto, é preciso cautela ao imaginar cenários positivos. O que quero dizer é que o home office, no caso brasileiro, também pode estar associado à precarização do trabalho, especialmente de intensificação da jornada de trabalho e perdas de direitos — observa.

Fonte: Gauchazh, por MARCELO KERVALT

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